Os coadjuvantes para a cura
 

"As Vantagens Médicas dos Sentimentos Positivos
Os indícios cumulativos sobre os efeitos médicos adversos da ira, ansiedade e depressão, portanto, são muito fortes. Tanto a ira quanto a ansiedade, quandO crônicas, podem tornar a pessoa mais susceptível a uma gama de doenças. E embora a depressão talvez não as torne mais vulneráveis à doença, parece impedir a recuperação médica e aumentar o risco de morte, sobretudo com pacientes mais frágeis e males sérios.
Mas se a perturbação emocional crônica, em suas muitas formas, é tóxica, a gama oposta de emoção pode ser revigorante. Isso não significa de modo algum que a emoção positiva seja curativa, ou que o riso e a felicidade, sozinhos, reverterão o curso de uma doença séria. A vantagem oferecida pelas emoções positivas parece sutil, mas, usando estudos com grandes números de pessoas, pode-se verificá-la no volume de complexas variáveis que afetam o curso da doença.
O Preço do Pessimismo e as Vantagens do Otimismo
Como acontece com a depressão, há custos médicos para o pessimismo - e vantagens correspondentes no otimismo. Por exemplo, 122 homens que tiveram um primeiro ataque cardíaco foram avaliados quanto ao seu grau de otimismo ou pessimismo. Oito anos depois, dos 25 mais pessimistas, 21 haviam morrido;
dos 25 mais otimistas, apenas seis. A perspectiva mental deles revelou-se um melhor previsor de sobrevivência do qualquer outro fator médico de risco, incluindo a extensão do dano causado ao coração no primeiro ataque, bloqueio de artéria, nível de colesterol ou pressão do sangue. E em outra pesquisa, os pacientes mais otimistas entre os que iam passar por uma cirurgia de ponte de safena tiveram uma recuperação muito mais rápida e menos complicações médicas durante e após a cirurgia do que a maioria dos pacientes mais pessimistas.
Como seu primo otimismo, a esperança tem poder curativo. As pessoas muito esperançosas são, compreensivelmente, mais capazes de resistir em circunstâncias difíceis, incluindo problemas médicos. Num estudo de pessoas paralisadas por danos na coluna, as mais esperançosas puderam conquistar maiores níveis de mobilidade física, em comparação com outros pacientes com níveis semelhantes de danos, pois essa tragédia médica envolve tipicamente um homem que fica paralítico na casa dos vinte anos por um acidente e assim ficará pelo resto da vida. A maneira como ele reage emocionalmente terá vastas Conseqüências para a medida com que fará os esforços que lhe podem trazer maior funcionamento físico e social
o motivo exato pelo qual uma perspectiva otimista ou pessimista tem Conseqüências para a saúde é uma questão aberta a várias explicações. Uma das teorias sugere que o pessimismo leva à depressão, que por sua vez interfere com a resistência do sistema imunológico a tumores e infecções - uma especulação não comprovada até o presente. Ou pode dar-se que os pacientes pessimistas se descuidem de si mesmos - alguns estudos constataram que os pessimistas fumam e bebem mais, e fazem menos exercício que os otimistas, e são em geral mais descuidados com seus hábitos de saúde. Ou pode um dia descobrir-se que a fisiologia da esperança, de algum modo, é em si biologicamente proveitosa para a luta do corpo contra a doença.
Com uma Ajudazinha dos Amigos:
O Valor Médico dos Relacionamentos
Acrescentem-se os sons do silêncio à lista de riscos emocionais para a saúde-e laços emocionais estreitos à lista de fatores protetores. Estudos feitos durante duas décadas, envolvendo mais de trinta e sete mil pessoas, mostram que o isolamento social a sensação de que não se dispõe de ninguém com quem partilhar os sentimentos privados ou ter um contato íntimo -duplica as possibilidades de doença ou morte. O isolamento em si, concluiu um comunicado de 1987 na revista Science, "é tão importante para as taxas de mortalidade quanto o fumo, a alta pressão sanguínea, o colesterol alto, a obesidade e a falta ta de exercício físico". Na verdade, o fumo aumenta o risco de mortalidade por um fator de apenas 1,6, enquanto o isolamento social o faz por um fator de 2,0, o que o torna um risco maior para a saúde.
O isolamento é mais grave para os homens do que para as mulheres Os homens isolados tinham de duas a três vezes mais probabilidades de morrer do que outros com estreitos laços sociais; para as mulheres isoladas, o risco era uma vez e meia maior do que para as outras com mais ligações sociais. A diferença entre homens e mulheres no impacto do isolamento talvez se deva ao fato de os relacionamentos das mulheres tenderem a ser mais emocionalmente estreitos que os dos homens; uns poucos fios desses laços sociais para uma mulher são mais reconfortantes que o mesmo pequeno número de amizades para um homem.
Claro, solidão não é a mesma coisa que isolamento; muitas pessoas que vivem sós ou vêem poucos amigos estão satisfeitas e saudáveis. É antes a sensação subjetiva de estar isolado das pessoas, e não ter para quem se voltar, que constitui um risco médico. Essa constatação é sinistra, em vista do crescente isolamento gerado pelo hábito de ver TV sozinho e a decadência de hábitos sociais como clubes e visitas nas modernas sociedades urbanas, e sugere um maior valor para os grupos de auto-ajuda tipo Alcoólicos Anônimos, como comunidades substitutas
O poder do isolamento como fator de risco de mortalidade e o poder curativo dos laços estreitos podem ser vistos no estudo de cem pacientes de transplante de medula óssea. Entre os pacientes que sentiam que tinham forte apoio emocional dos cônjuges, família ou amigos, 54 por cento sobreviveram aos transplantes após dois anos, contra apenas 20 por cento entre os que haviam comunicado pouco apoio desse tipo. Do mesmo modo, idosos que sofrem ataques cardíacos, mas têm duas ou mais pessoas em sua vida com quem podem contar como apoio emocional, têm mais de duas vezes mais probabilidades de sobreviver além de um ano após um ataque do coração do que as pessoas que não têm esse apoio.
Talvez o testemunho mais revelador da potência curativa dos laços emocionais seja um estudo sueco publicado em 1993.41 Ofereceu-se a todos os homens que viviam na cidade sueca de Goteborg, nascidos em 1933, um exame médico gratuito;
sete anos depois, os 752 que se apresentaram para o exame foram procurados de novo. Do total, 41 haviam morrido nos anos transcorridos desde então.
Os homens que haviam comunicado originalmente estar sob intensa tensão emocional tinham uma taxa de mortalidade três vezes maior que os que disseram que suas vidas eram calmas e plácidas. A perturbação emocional devia-se a fatos como um sério problema financeiro, insegurança no emprego ou ser forçado a deixá-lo, ser objeto de um processo legal ou passar por um divórcio. Três ou mais desses problemas no ano anterior ao exame era um fator de previsão mais seguro de morte nos sete anos seguintes do que indicadores médicos como alta pressão sanguínea, alta concentração de triglicerídeos no sangue, ou altos níveis de colesterol. .
Contudo, entre os homens que disseram ter uma rede confiável de intimidade esposa, amigos íntimos e outros semelhantes não houve qualquer relação entre altos níveis de tensão e taxa de mortalidade. O fato de ter pessoas para quem se voltar e com quem conversar, pessoas que podiam oferecer consolo, ajuda e sugestões, protegia-os do impacto mortal dos rigores e traumas da vida.
A qualidade dos relacionamentos, além do simples número deles, parece fundamental para amortecer a tensão. Os relacionamentos negativos cobram seu preço. As discussões conjugais, por exemplo, têm um impacto negativo sobre o sistema imunológico. Um estudo de colegas de quarto na universidade constatou que quanto mais eles antipatizavam um com o outro, mais susceptíveis eram a resfriados e gripes, e com mais freqüência iam ao médico. John Caciopp°, o psicólogo da Universidade do Estado de Ohio que fez o estudo dos colegas de quarto, me disse:
São os relacionamentos mais importantes na vida da gente, as pessoas que a gente vê dia sim, dia não, que parecem ser cruciais para a nossa saúde. E quanto mais significativo o relacionamento em nossa vida, mais conta para a nossa sa saúde
O Poder Curativo do Apoio Emocional
Em As Alegres Aventuras de Rohin Hood, Robin aconselha a um jovem seguidor:
conte-nos seus problemas e fale livremente. Uma enxurrada de palavras sempre descarrega as mágoas do coração; é como abrir a comporta onde a represa está transbordando." Este exemplo de sabedoria popular tem grande mérito; descarregar um coração angustiado parece ser um bom remédio. A corroboração científica do conselho de Robin vem de James Pennebaker, psicólogo da Universidade Metodista do Sul, que mostrou numa série de experiências que fazer as pessoas falarem sobre os pensamentos que mais as perturbam tem um efeito médico benéfico. O método dele é admiravelmente simples: pede às pessoas que escrevam quinze ou vinte minutos por dia, durante mais ou menos cinco dias, sobre, por exemplo, "a mais traumática experiência de toda a sua vida", ou alguma preocupação premente no momento. O que as pessoas escrevem pode ser inteiramente para elas mesmas, se quiserem.
O efeito final desse confessionário é impressionante: maior função imunológica, quedas significativas de visitas a centros de saúde nos seis meses seguintes, menos dias de ausência no trabalho, e até melhor função enzimática do fígado.
Além disso, aqueles cujos textos mostravam mais sinais de pensamentos turbulentos foram os que tiveram maior melhora na função imunológica. Surgiu um padrão específico como a forma "mais saudável" de extravasar sentimentos perturbadores: primeiro expressar um alto nível de tristeza, ansiedade, ira quaisquer sentimentos perturbadores que o tópico evocasse; depois, no correr dos dias seguintes, tecer uma narrativa, encontrando algum sentido no trauma ou esforço.
Esse processo, claro, parece semelhante ao que acontece quando as pessoas examinam tais problemas na psicoterapia. Na verdade, as constatações de Pannebaker sugerem um motivo pelo qual outros estudos mostram que pacientes médicos que recebem psicoterapia além da cirurgia ou tratamento médico muitas vezes se dão melhor em termos médicos do que os que recebem apenas tratamento médico.
 

Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman

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